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EU TENHO MEDO !!!

Falando Sério

Eu confesso: me mantive calado até agora, considerando que certas coisas tendem a se tornar endêmicas na medida em que são repassadas, mesmo que por escrito. Veja-se a mídia em geral: de um dia para o outro, estamos acreditando que o Papa foi morto, que foi colocado um androide em seu lugar que e apenas consegue repetir frases ininteligíveis, porque um boato entulhou nossas caixas postais vindo dos mais diferentes locais do planeta.
Então me mantive calado até agora. Mas, agora que o perigo se alojou e se tornou factível; agora, que não há mais saída, que estamos diante de fato consumado, agora que não tem mais como, e, assim como acontece com a COVID. É melhor admitir e procurar os meios corretos, agora, eu confesso que também adquiri a síndrome, ainda sem nome.
Enfim, pouco importam os detalhes da denominação da síndrome, mas sim, o fato de que me sinto tomado – e isto há muito tempo – completamente possuído por esta, e que preciso confessar, publicamente isto. Agora eu confesso: eu tenho medo...
Eu tenho medo, muito medo mesmo: medo da polícia e do bandido; medo da receita – a federal, e não que poderá indicar a cura para a minha síndrome e a de tantos outros brasileiros; tenho medo dos bancos; tenho medo do mercado, tenho medo do Dólar e do Real. Tenho medo de morrer e de continuar a viver deste modo difícil como tem sido a Vida; tenho medo do médico, do advogado, do dentista e de suas contas; tenho medo, medo, medo...
Tenho medo de que meus concorrentes me levem à falência, tenho medo de que o INSS não pague minha aposentadoria ou reduza os caraminguás que percebo (tem-se que perceber mesmo por que na proporcionalidade já meteram a mão). Tenho medo de que as coisas possam mudar para pior, se é que existe pior, ou para melhor e esquecerem de me incluir ou me incluindo, pois, tenho medo de não me adequar, de não me atualizar, porque é pedir demais para quem já viveu o que eu vivi.
Tenho medo do Biden e do Trump; do Maduro, do Putin, do Lula e do Bolsonaro. Tenho medo desses favelados que andam pelas ruas, e que nem sempre posso identificar, possíveis aviões teleguiados que trazem maconha, cocaína, o roubo e a morte, para mim e para minha descendência; tenho medo de minha descendência me trair, se aliando, seja a terroristas, a traficantes, a comunistas...
Tenho medo de sair à noite ou de dia; tenho medo de ficar em casa e ser sequestrado lá mesmo. Tenho medo de que nosso país seja invadido por inimigos ou seja vendido pelos “amigos”. Tenho medo dos amigos... “amigos”? Tenho medo de chegar à janela e receber uma bala perdida. Tenho medo do apagão. Tenho medo da quarentena, tenho medo de sair com máscara, tenho medo de usar a máscara. Tenho medo de verificar o saldo bancário. Tenho medo de tentar entender o que acontece, e de repente não entender mais nada e me perder do que sei. Tenho medo de não saber nada, e não sei se quero saber.
Mas, tenho acima de tudo, medo de mim, porque algo em mim me empurra além deste medo, e me faz adentrar estas perigosas ruas, este mundo infame, este mercado insano, num país que se entrega ao perigo e à violência. Tenho medo porque continuo, quando o certo seria se fechar em casa, gradear as janelas, desligar a TV, o micro, o celular, o rádio e jamais aos domingos ir à banca comprar o jornal com as notícias da semana... eu tenho medo...
Joinville, 30 de junho de 2021.
Henrique Chiste Neto







  • Fontes: HENRIQUE CHISTE NETO