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Gramática delirante

FALANDO SÉRIO
Ao final deste ano a turma de 1971 da Escola de Engenharia de Taubaté completará 50 anos de vida profissional. Numa turma de 56 alunos que tiveram formação em Engenharia Civil, cada qual tomou um rumo e se espalhou por este mundão à fora.
Depois de uma vida nômade no início da carreira, estacionei em Joinville para nunca mais sair. Acabei fazendo de tudo um pouco dentro da engenharia civil. Até aulas acabei dando durante sete anos na UDESC.
Na convivência profissional vi muitos fatos inusitados. Os mais pitorescos foram colhidos dentro da aplicação gramatical na elaboração de relatórios, laudos e “coisas” escritas. É impressionante como o profissional de engenharia, em sua maioria, tem grande aversão pela escrita. É verdade que as faculdades não estão nem aí com esta matéria. Se houvesse um mínimo de atenção para com a língua pátria, não haveria tanta aberração neste sentido.
Como perito judicial, tive acesso à muitos processos em que os peritos e assistentes técnicos são obrigados a desenvolver relatórios para auxílio no julgamento dos magistrados. Assim, nestes cinquenta anos colecionei algumas pérolas que dão uma ideia do festival de besteira que assola o nosso meio.
Certa feita, deparei com a seguinte frase retirada de um laudo pericial para fins judiciais, mais particularmente no capítulo relativo à descrição do imóvel vistoriado: “O imóvel está uma boneca!”
Esta frase foi extraída de um termo de encerramento de laudo pericial em processo que tramitou perante a Vara Cível local: “Os anexos seguem em separado.”
De uma demanda judicial entre a Caixa Econômica Federal e um mutuário saiu esta preciosidade relatada por um dos assistentes de perito, em seu relatório: “desconfio que o mutuário não está a fim de quitar o débito.”
Esta foi brindada por um colega, engenheiro agrônomo, que era chefe em uma repartição pública. Numa inspeção de propriedade agrícola que recebera financiamento do governo, o engenheiro tascou o seguinte: “O cliente faz roçado juntamente com a mulher.” (Êpa!)
Informação de um perito apresentada no relatório de uma diligência feita em imóvel financiado com mutuário inadimplente: “O mutuário foi para São Paulo para melhorar de vida. Quando voltar vai liquidar o banco, informou sua mulher.”
Outra semelhante também ofertada pelo colega agrônomo: “O mutuário vendeu o touro financiado porque o mesmo estava frouxo; trocou-o por um mais potente.”
Há muitos anos colhi esta pérola em um processo antigo de demanda por terras: “Era uma ribanceira tão ribanceada que se estivesse chovendo e eu andasse a cavalo, e o cavalo escorregasse, adeus perito.”
Numa avaliação de uma empresa que estava em estado falimentar, deparei com esta frase do perito assistente em seu relatório: “A máquina elétrica financiada é manual e velha.”
Para encerrar, vai uma contada por um amigo gerente da carteira agrícola de um banco famoso, referindo-se ao relatório do engenheiro fiscal: ” As garantias permanecem em perfeito estado de abandono e conservação. Mutuário mantém vida privada na fazenda.”

Joinville, 06 de abril de 2021
Henrique chiste Neto








  • Fontes: HENRIQUE CHISTE NETO