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TRISTEZA DO MARADONA

Cidade de Turim...1990. Dia de jogo da Seleção Brasileira contra a Seleção Argentina. Dia de guerra para nós torcedores.
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Queira sentar-se que lá vem história.
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Logo cedo a rotina de sempre: ir para o Estádio Delle Alpi tentar conseguir ingressos para a tarde. Um clássico do futebol mundial, duas das grandes "escolas do futebol" frente á frente.
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Semanas antes eu me abasteci no Mercado Municipal de Taubaté de dezenas de camisas Canarinhos da Seleção Brasileira - aquelas que custavam 10,00 merrecas...não me lembro a moeda de época...que eu tratava de valorizar com um falcatrua.
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Desenhar em cada camisa a assinatura do Pelé que eu sabia fazer com perfeição.
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Na porta do Estádio os fregueses iam chegando: os ciganos da Hungria, Iuguslávia, ou algo parecido, que disputavam as camisas Canarinhos para também fazer seus negócios.
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Era fácil vender as camisas com "assinaturas do Pelé". Mas os ciganos vinham com pacotes de um dinheiro colorido que cabia dentro de uma caixa de sapatos.
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Eu disse: "Esse dinheiro eu não quero...tem que ser em dólar".
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(Não me pergunte como um brasileiro e um cigano da Hungria se entendiam, cada um com sua língua).
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Me faziam prometer que eu não sairia das imediações do Estádio Delle Alpi com o meu pacote de camisas, até que as casas de câmbio abrissem para trocar aqueles papéis coloridos por dinheiro de verdade
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Com dólar era só procurar os cambistas para os ingressos para
mim e meu filho Dennis (com 13 anos) em sua segunda Copa do Mundo.
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Lanche feito, cervejas e samba rolando, chegou a hora do jogo.
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O Estádio Delle Alpi nós dividíamos com a torcida argentina com a força dos italianos que torciam por Don Diego que jogava no Napoli na Itália.
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Torcida barulhenta com seus tambores, sem o ritmo do nosso samba.
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Jogo rolando Don Diego deixa o companheiro Canigia na frente do nosso goleiro Tafarel que marca para os argentinos.
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Guardei o pesado surdo do Bloco Vai Quem Quer que estava comigo.
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Para nos provocar os torcedores argentinos invadiram nosso espaço com seu cantos de guerra.
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Por pouco eu não uso o surdo do Vai Quem Quer para dar início ao confronto, arremessando-o na cabeça de um deles. Mas me lembrei do Dennis ao meu lado com seus 13 anos.
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O surdo se calou, nos recolhemos todos, acabou a cantoria, o comércio de camisetas Canarinhos, deixamos do Estádio Delle Alpi suportando aquela cantoria enaltecendo Don Diego.
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Foi a única vez que vi pessoalmente esse gênio em campo. Um dia inesquecível proporcionado por um dos maiores que vi jogar.
(JOSÉ DINIZ JUNIOR)






  • Fontes: JOSÉ DINIZ JUNIOR