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Sonhos do Fritz

Falando Sério

Cheguei sexta-feira no Fritz e ainda não tinha chegado ninguém. Entrei de mansinho e encontrei o alemão de máscara sentado em nossa mesa habitual, espiando o infinito através da vidraça que compõe a janela dos fundos. O cachimbo fedorento jazia, sem sinal de vida, em sua mão direita, não havia fumaça. E como diz o ditado, se não há fumaça não há fogo.
Parei e fiquei observando o “mastodonte”, estava longe, muito longe. Havia certo ar de felicidade em seu semblante e um sorriso brejeiro escapa-lhe dos lábios. Fiquei ali apreciando a cena. Queria ver até onde aquele sonho se desenrolaria.
- Ô de casa! Tem alguém aí? – pronto acabou-se o que era doce, chegou o espalhafatoso do Pereira – o Ranza, que já da porta de entrada acabou com o devaneio do Fritz e com minha curiosa observação.
- Ôps! Mein Lieb God! – exclamou o alemão deixando cair o babado cachimbo que espatifou-se no assoalho espargindo fumo e cinza por todos os lados.
- Tinha que ser o Ranza né? – não me contive com a bronca.
- Que foi que eu fiz? Tudo eu, tudo eu! Até parece que acabou o mundo.
- Mais ou menos – expliquei. O Fritz estava sonhando, sonhando e você vem perturbar suas doces lembranças?
- Mas estavas a sonhar com o quê, ó Fritz, eu não sabia que alemão pensava, só se era com chopes e salsichas – gracejou o Ranza, como é de seu costume.
- Arre ééégua! Que saudade...que fontade de foltarr aos meus dez anos de idade...Que saudade do minha casa lá no roça da minha afô, onde todas as noites ia brrincar e foltava todo suado e fedido...e escutava minha mãe dizer: “fai tomarr banho ô menino descrraçado...nón esquece de lavarr as orrelhas e esta cabeça cheia de piolhos... e tantas coissas mais.
- Então Fritz, em sua infância, era nisso que você pensava quando aqui cheguei? – perguntei ao alemão que continuou falando.
- É, eu estava pensando quando ia no escola e sentava atrrás de duas irrmãs gêmeas, de cabelos comprridas e bem loirrinhas...Uma veiz eu amarrei as trranças das duas e quando forram levantar nón conseguirram sairr...hehehe, foi o maior gozaçón no classe e o “degas” aqui foi expulsa do aula e levei o maiorr surra quando cheguei no minha casa.
Aí o Ranza entrou na conversa: - e do que você sente mais saudade, Fritz?
- Oh! Mein Lieb God! É do minha poneca de pano que ganhei de um tio que veio do Alemanha.
-Boneca de pano? Ô Fritz, eu não sabia que você brincava de bonecas, conta aí esse seu lado feminino.
- Nón tem nada de lada feminina ô Ranza, ééégua. Erra uma poneca festida de soldada, com as roupas todas colorridas, muito ponita e que me acompanhou porr muitas e muitas anos. Nón tem nada de frrescurra aí...pode parrar.
- Pô Fritz, mas brincar de boneca não fica bem para um menino.
- É que a poneca foi o minha maior companheirra. Eu falava com ela. Ela me escutava e até chorrava junta comiga quando eu estava trriste.
- !
- ?
- Eu sei que vocês nón acrreditam. É que vocês nón tiverrán infância, seus desnaturrados deu uma figa!
- Ô Fritz, não é nada disso. Tivemos infância sim. A minha foi muito feliz e traz-me muitas saudades. Acredito que a do Ranza lá em São Francisco do Sul tenha sido também repleta de aventuras de piratas e de navios assombrados. É por isso que ele tem os cabelos arrepiados até hoje. Da próxima vez vou contar pra vocês um pouco dos meus primeiros tempos.
- Pra comemorar sua infância ó Fritz, traz uma ampola bem gelada e quatro copos.
- Quatrro copos? Mas estamos só em trreis aqui!
- Um é para sua boneca ô alemão bicha...

Joinville, 04 de agosto de 2020.
Henrique Chiste Neto







  • Fontes: HENRIQUE CHISTE NETO